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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Um Brasil na África

Das empreiteiras às redes de franquias, como a lanchonete Bob's, um número cada vez maior de empresas vem aproveitando as oportunidades em Angola.

A dona de casa Jandira Manuel, de 24 anos, escolheu a manhã de uma segunda-feira de novembro para fazer compras no supermercado Nosso Super, instalado no bairro do Gamek, em Luanda, capital de Angola. Enquanto escolhia os produtos, Jandira carregava Jorge, seu filho de 8 meses. Dentro da loja, o ar condicionado tornava distante o calor de mais de 30 graus. Do alto-falante, ecoavam hits da dupla sertaneja brasileira Zezé Di Camargo & Luciano. Essa cena prosaica é uma novidade em Angola, país que só nos últimos anos começou a se recuperar da guerra civil encerrada em 2002 que deixou um saldo de 1,2 milhão de mortos, 4 milhões de refugiados e minas espalhadas por um território de mais de 1 400 quilômetros quadrados. Antes da chegada de negócios como o Nosso Super, consumidores como Jandira abasteciam-se nas "zungueiras", como são chamadas as tradicionais negociantes de rua, que mantêm bacias e bancas improvisadas, ou nas bancas do famoso Roque Santeiro, um gigantesco mercado a céu aberto local, batizado em homenagem à novela brasileira dos anos 80. "Agora venho ao supermercado no mínimo uma vez por semana", diz Jandira. "É muito melhor do que comprar na rua."

O Nosso Super é a pioneira entre as redes de supermercados instaladas em Angola e, como tantos outros negócios, pertence ao governo socialista do país. Sua primeira unidade foi aberta em 2007 e, hoje, há 29 lojas da marca em operação. Erguido e administrado pela construtoraOdebrecht, o Nosso Super representa um dos inúmeros exemplos da presença brasileira em diversos setores da economia angolana. O país tenta se reerguer das ruínas deixadas pela guerra, importa quase tudo o que é consumido e tem dinheiro em caixa para pagar as contas graças à riqueza trazida pela extração do petróleo, que gerou um crescimento médio anual de 16,7% do PIB angolano entre 2004 e 2008. Era previsível, portanto, que empresários vissem em Angola, ex-colônia portuguesa que venera artistas e esportistas e reconhece as marcas brasileiras, uma oportunidade de fazer negócios. Entre 2000 e 2008, as exportações do Brasil para o país foram multiplicadas por 10. Em 2008, Angola transformou-se no principal parceiro comercial do Brasil na África. Hoje, há cerca de 100 empresas e 40 000 profissionais brasileiros atuando no país. A China, país com enorme interesse no potencial angolano na área de commodities, tem cerca de 20 companhias em operação e 25 000 profissionais em Angola. "Há oportunidades excelentes para vários setores", disse a EXAME o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, Miguel Jorge, que conduziu em novembro uma missão com 98 empresários para Angola.

A fase de grande impulso das relações comerciais entre as duas nações começou com a participação das empreiteiras brasileiras na reconstrução da infraestrutura angolana. AOdebrecht foi a primeira a chegar, em 1984, ainda em meio à guerra civil. Hoje, a empresa tem em andamento mais de 40 contratos com o governo local e é uma das maiores empregadoras do país, com uma equipe de 25 000 funcionários. Anos depois, Camargo Corrêa e OAS chegaram ao país. Com obras gigantescas, as construtoras atraíram uma cadeia de prestadores de serviços que vai de escritórios de advocacia a redes de comida rápida. Em 2005, a cadeia de fast food Bob's inaugurou na região da ilha de Luanda uma de suas maiores lojas no país, com 400 metros quadrados. A unidade conta com drive-thru e três salões de festas, que são procurados pelos angolanos para celebrar aniversários, batizados e até casamentos.

Para um país que tem de importar itens básicos, reconstruir a base agrícola é estratégico. Antes da guerra civil, Angola chegou a ser a terceira maior produtora de café do mundo e um dos principais exportadores da África de commodities como milho, açúcar e tabaco. Assim como em outros setores, o governo tenta atrair investidores para o campo a fim de garantir que o país se torne autossuficiente, no prazo de alguns anos, em itens básicos, como feijão e milho. Um dos maiores projetos é o da fazenda Pungo Andongo, com participação da Odebrecht. Trata-se de uma fazenda-modelo desenvolvida em uma área de 36 000 hectares na província de Malanje, ao norte do país, que produz milho, soja, feijão e arroz para atender à demanda interna.

Na concorrência com outros países que disputam os grandes projetos de Angola, o Brasil leva vantagem graças aos laços culturais. Além do idioma, brasileiros e angolanos dividem o gosto por novelas (exibidas ali pela Globo Internacional e pela Record Internacional) e a paixão por artistas como o cantor Roberto Carlos e por futebol. Politicamente, o Brasil é lembrado por ter sido o primeiro a reconhecer a independência angolana, em 1975. Nos anos recentes, o governo brasileiro tem atuado para aumentar o fluxo comercial com a África. Desde 2006, o BNDES destina recursos sob a forma de duas linhas de crédito que somam 1,75 bilhão de dólares para financiar a compra de equipamentos brasileiros para obras de infraestrutura em Angola. Para ampliar os negócios, uma terceira linha, de 500 milhões de dólares, foi liberada em outubro.

A recente crise financeira e, sobretudo, a queda nos preços do petróleo abalaram a economia angolana nos últimos meses -- prova da enorme dependência do país de um único recurso. Sobrou para as empresas brasileiras, fornecedoras do governo, que tiveram seus pagamentos atrasados. Em julho, o ministro das Finanças angolano, Severim de Morais, confirmou uma pendência total de 2 bilhões de dólares com as empresas de construção. "Não queremos deixar a dívida passar para 2010", afirmou. De acordo com o que EXAME apurou com as empresas do setor, uma parte do pagamento deve ocorrer até o fim de 2009, e a outra nos primeiros meses de 2010, quando as projeções indicam que a economia angolana deve retomar o ritmo de crescimento, com uma previsão de evolução do PIB acima de 8%.

O progresso dos últimos anos eliminou apenas parte dos problemas e das carências de Angola. Segundo a ONU, 70% dos angolanos vivem com menos de 2 dólares por dia. Luanda, com seus prédios em construção, ainda é uma cidade cheia de "musseques", as favelas locais. O passeio pelo moderno Belas Shopping de tempos em tempos é interrompido por blecaute. O grande déficit habitacional, calculado em 2 milhões de casas somente na capital, Luanda, faz com que o preço dos aluguéis e de venda dos imóveis cresça vertiginosamente. Os empresários estrangeiros que chegam ao país enfrentam problemas como a dificuldade para obter visto, o excesso de burocracia e a corrupção. No ranking mais recente sobre o assunto, elaborado pela ONG Transparência Internacional, Angola está entre os 20 países mais corruptos do mundo. O restabelecimento da democracia não deve acontecer tão cedo. Em setembro, o presidente José Eduardo dos Santos comemorou discretamente as três décadas de sua chegada ao poder. Dois meses depois, num discurso, afirmou que eleições presidenciais em Angola só ocorrerão em 2012.

Fonte: Portal exame

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A saída é crescer na África

Pressionada pela expansão das grandes redes de varejo no Brasil, a pequena Tenda Atacado escolheu Angola para continuar crescendo -- uma aventura repleta de percalços.

Há pelo menos quatro meses, a região do quilômetro 14 da Estrada do Catete, no distrito de Viana, em Luanda, capital de Angola, vive um período de transformação. Ali, cerca de 60 funcionários, 15 deles brasileiros, têm trabalhado dia e noite na construção da nova loja da rede Tenda Atacado, companhia paulista que cresceu ao explorar um formato bem brasileiro de comércio -- o atacarejo, uma fusão dos conceitos de varejo e atacado. No galpão de 2 300 metros quadrados e prateleiras de até 7 metros de altura, serão vendidos de refrigerantes a pastas de dentes, quase tudo importado do Brasil. A inauguração está prevista para o dia 30 de novembro -- e é aguardada com certa ansiedade por moradores e autoridades locais. Embora se trate de um empreendimento relativamente pequeno se comparado às obras de grandes empreiteiras na região, a nova unidade da Tenda em Luanda é parte da construção de um novo capitalismo num país que por anos sobreviveu em meio ao socialismo e às guerras civis. A chegada da Tenda, rede de 12 lojas com faturamento anual de 1,2 bilhão de reais, à Angola marca a primeira incursão do varejo brasileiro no país desde a estatização da loja Jumbo, então pertencente ao grupo Pão de Açúcar, em 1974.

A Angola de hoje aparece como um lugar de oportunidades para uma série de empreendedores brasileiros. O fim dos conflitos civis, em meados de 2002, engajou o país no esforço de reconstrução, transformando-o num dos maiores canteiros de obras do mundo. Beneficiada pelas grandes reservas petrolíferas, Angola é atualmente um dos países que mais crescem na África, com taxas médias anuais da ordem de 15%. "Angola vive um momento único em sua história", diz Pedro Olavo Severini, presidente do conselho de administração da Tenda Atacado. "E nós queremos ser os primeiros varejistas a aproveitar essa oportunidade."

O mercado inexplorado, o pioneirismo e as oportunidades que tudo isso traz ajudam a explicar apenas em parte a opção da Tenda pela África. Em termos de mercado consumidor, o Brasil, com seus 80 milhões de consumidores da classe C, o público primordial das redes de atacarejo, é infinitamente maior que Angola, com uma população total de 16 milhões de habitantes. E é exatamente isso que faz com que o mercado brasileiro seja hoje uma prioridade para as maiores redes de varejo do mundo. Para uma companhia de 1,2 bilhão de reais como a Tenda, a competição aqui tem ficado a cada dia mais difícil. Perto de seus maiores concorrentes, a Tenda é hoje pequena. Nos últimos quatro anos, as redes Atacadão, Assai e Maxxi foram adquiridas pelo grupo francês Carrefour, pelo Pão de Açúcar e pela cadeia americana Walmart, respectivamente. É com eles, portanto, que Severini, um paulista de 74 anos, disputa os consumidores. "Boa parte do novo mercado brasileiro está concentrada nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país", diz o executivo Sussumu Honda, presidente da Associação Brasileira de Supermercados. "Essas regiões já estão ocupadas pelos concorrentes. Como não tem envergadura para disputar esses mercados, a Tenda pode reinar praticamente sozinha em Angola." Nos planos de Severini está a abertura de nove lojas da Tenda em Angola nos próximos cinco anos. Assim, sua operação internacional passaria a significar cerca de 10% do faturamento total da rede.

Como é comum acontecer à maioria das empresas que se aventuram fora do país pela primeira vez, a execução do plano mostrou-se bem mais complicada do que o inicialmente previsto. No papel, o projeto parecia perfeito: bastava adquirir um galpão, treinar funcionários ávidos por um emprego estável e despachar as mercadorias diretamente do Brasil para Angola. Pelos cálculos originais, a nova loja estaria de pé em apenas quatro meses, pronta para ser inaugurada no início de setembro -- faltou apenas combinar com os angolanos. As peças metálicas que serviriam para estruturar a loja, todas despachadas do Brasil, levaram 25 dias para ser liberadas no porto de Luanda, e não uma semana, como é de praxe em outros países. Sete dos 32 contêineres com os produtos que abasteceriam as prateleiras ficaram parados por mais de 50 dias à espera do preenchimento de formulários extras. "Obter as aprovações necessárias para operar fica mais difícil quando não se tem proximidade com funcionários do governo", diz Fausto Severini, diretor de expansão da Tenda e um dos filhos de Pedro Olavo. Encontrar gente disposta a trabalhar na nova loja também não é tão trivial quanto parece. Por uma questão cultural, os angolanos não estão habituados a firmar contratos de trabalho de longo prazo. É comum que os funcionários locais compareçam ao trabalho por dois ou três dias, e depois desapareçam. Para evitar o colapso, a Tenda enviou uma equipe de 20 executivos brasileiros para tocar a operação em Luanda. Eles deverão ficar lá por um período de até dois anos. "Nem todo mundo se prontificou a ir", diz Fausto. "A inauguração teve de ser adiada por duas vezes. Foi mais difícil do que imaginávamos."

A atual estratégia de expansão da Tenda é reflexo do estilo empreendedor de Pedro Olavo Severini. Nascido na cidade de Monte Azul Paulista, no interior de São Paulo, ele decidiu se juntar à rede de atacarejo criada por dois de seus quatro filhos, Carlos Eduardo e Fausto, em 2001, como forma de pôr fim a uma longa disputa familiar. Na década de 80, Severini herdou do pai o comando da distribuidora e atacadista de alimentos Vila Nova, que operava em Minas Gerais e no interior de São Paulo. Ao contrário do tio e do irmão, seus sócios no negócio, ele defendia que a empresa se expandisse mais rapidamente pela capital paulista. Os sócios, por outro lado, queriam que a empresa explorasse o mercado mineiro. Em meio às discussões, Severini conseguiu convencer a família a abrir uma loja de atacarejo numa região próxima à marginal do rio Tietê, na zona norte de São Paulo. Isso, no entanto, não impediu que o clã se dividisse. A briga entre Severini e seus sócios foi parar na Justiça. "Seria um erro ficarmos fora do maior mercado do país", diz Severini, que até o ano passado ocupava a presidência da Tenda. Com a Vila Nova separada em dois, Severini deixou a empresa. Foi a gênese da Tenda Atacado, que surgiu com uma loja instalada no bairro de Guarapiranga, na zona sul de São Paulo.

Se quiser repetir em Angola o mesmo ritmo de crescimento conseguido no Brasil, os donos da Tenda terão de vencer vários obstáculos. Além da óbvia dificuldade de operar em outro país, com uma cultura completamente diferente, ainda será preciso lidar com os problemas típicos de uma nação recém-saída de sangrentas guerras civis, com regime político peculiar, infraestrutura precária e falta de mão de obra qualificada. A precariedade do porto de Luanda, que chega a levar três meses para liberar as mercadorias, fez com que a Tenda optasse por não oferecer produtos com prazo de validade inferior a seis meses, como legumes, verduras, frutas, pães industrializados, feijão e iogurtes -- justamente os que atraem o maior público para as lojas aqui no Brasil. "O custo Luanda terá de ser repassado aos preços", afirma Carlos Eduardo Severini, diretor-geral da Tenda. "Do contrário, a conta não fecha." Com preços mais altos, a Tenda terá de enfrentar a concorrência da rede de supermercados local Nosso Super, controlada pelo governo angolano e administrada pela construtora Odebrecht. "Nossa vantagem sempre foi vender mais barato e vamos nos esforçar para fazer a mesma coisa em Angola", diz Carlos Eduardo. A Nosso Super pode ser um competidor forte em Angola. Mas, por enquanto, é o único.

Fonte: Portal Exame