sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ex-aliadas, Apple e Google se enfrentam


Em 5 de janeiro, o Google fez algo bem no estilo Apple. Em apresentação no Googleplex, em Moutain View, na Califórnia, a gigante das buscas on-line, criada há 11 anos, lançou o Nexus One, um refinado telefone inteligente, com tela sensível ao toque, que roda o sistema operacional Android, do próprio Google, é vendido no site de varejo operado pelo Google, e saúda o mercado com uma propaganda tão simples e otimista ("a web encontra o telefone") como a usada pela Apple em 2007, para apresentar o iPhone ("a internet em seu bolso").
No mesmo dia, a Apple fez algo bem no estilo do Google. Steve Jobs, o rei dos lançamentos espalhafatosos de produtos e do desenvolvimento interno, anunciou uma aquisição estratégica. Por US$ 275 milhões, a Apple comprou a Quattro Wireless, uma empresa iniciante de publicidade que envia anúncios aos usuários de telefones celulares com base no comportamento deles.
Quando empresas começam a se imitar, ou se trata de um caso extremo de adulação ou de uma guerra. No caso do Google e da Apple, são as duas coisas. Separadas por pouco mais de 15 quilômetros no Vale do Silício, as duas vêm se relacionando em bons termos há quase dez anos. Jobs e o executivo-chefe do Google, Eric Schmidt, ambos com 54 anos, passaram anos em batalhas separadas contra a Microsoft, enquanto Schmidt estava na Sun Microsystems e na Novell. Ao longo do tempo, avançaram de aliados "espirituais" para estratégicos. Quando a Apple ficou com um assento aberto em seu conselho de administração, em 2006, Jobs chamou Schmidt. "Eric, obviamente, está fazendo um ótimo trabalho como executivo-chefe do Google", disse Jobs na ocasião. Schmidt, por sua vez, chamou a Apple de "uma das companhias que mais admiro no mundo".
As tensões nessa relação especial começaram a emergir no fim de 2007, quando o Google anunciou planos para desenvolver o sistema Android, para telefones celulares. A Apple havia lançado seu iPhone em janeiro daquele ano e ficou claro que as duas companhias iriam se enfrentar no mercado de telefones inteligentes. Ainda assim, ambas eram empresas que atuavam em segmentos específicos e nomes como Nokia,Samsung Research in Motion (RIM) eram os rivais mais importantes. Apenas depois de os programadores de software começarem a desenvolver milhares de aplicativos para aparelhos sem fio e de ficar claro que os telefones se tornariam os computadores do futuro é que o conflito começou a ficar sério.
No verão passado no hemisfério Norte, a Apple recusou-se a aprovar dois aplicativos do Google para a venda a usuários do iPhone, levantando questões sobre até que ponto a Apple permitiria a presença do Google em seus aparelhos. Em agosto, Schmidt abriu mão de seu assento na diretoria. "Infelizmente, à medida que o Google entrar no negócio principal da Apple", disse Jobs na ocasião, "a efetividade de Eric como membro do conselho da Apple ficará diminuída significativamente, uma vez que ele terá de recusar-se a participar de uma parte maior de nossas reuniões".
Agora, as companhias entraram em uma nova fase, mais antagônica. Com o Nexus One, o Google, que vinha se contentando em alimentar os aparelhos de vários fabricantes com o Android, entra no campo de jogo dos telefones celulares, tornando-se uma ameaça direta ao iPhone. Com a compra da Quattro, a Apple pretende criar anúncios para telefones completamente novos, segundo três fontes a par dos planos da empresa. A meta não é tanto concorrer com o Google em buscas, mas tornar a busca em telefones celulares algo obsoleto. "Ambas, Google e Apple querem mais", diz Chris Cunningham, fundador da Appssavvy, uma empresa nova-iorquina de anúncios em celulares. "Elas estão se preparando para a luta definitiva."
Katie Cotton, porta-voz da Apple, não quis comentar os planos de publicidade nem a relação da empresa com o Google. Katie Watson, porta-voz do site de buscas, afirmou que a companhia não colocaria executivos à disposição para este artigo. Ela, contudo, enviou uma declaração, atribuída ao vice-presidente de engenharia do Google, Vic Gundotra. "A Apple é uma parceira valiosa e continuamos a trabalhar de perto com eles para ajudar a levar adiante todo o ecossistema sem fio."
A indústria de tecnologia já teve sua dose de rivalidades lendárias: IBM versus Digital Equipment , Microsoft versus Netscape e America Online versus Yahoo, entre outras. Apple versus Google pode fazer com que todas pareçam coisa pequena. As duas empresas são reverenciadas pelos consumidores com uma paixão normalmente reservada a estrelas de filmes e atletas profissionais. Possuem cofres multibilionários, fundadores visionários e ambições nas áreas de telefones inteligentes, navegadores de internet, música e dos computadores chamados de "tablet", o que as coloca em rota de colisão.
O campo de batalha crucial no curto prazo é a computação móvel. Analistas que antes vibravam ao falar da internet, voltam a ter a mesma sensação com o potencial do mundo sem fio. Mary Meeker, do banco Morgan Stanley, prevê que dentro de cinco anos haverá mais usuários acessando a internet por meio dos aparelhos móveis do que pelos computadores de mesa. Foi o acesso à rede via PCs que levou à ascensão do Google, do eBay e do Yahoo. Os grandes vencedores do mundo sem fio ainda estão por surgir. "Agora é a hora de começar", diz o analista Doug Clinton, da corretora e banco de investimento Piper Jaffray. "Trata-se de vencer a batalha hoje e não de entrar em uma disputa amanhã."
O dinheiro na publicidade em aparelhos móveis é pouco - cerca de US$ 2 bilhões em 2009, segundo a empresa de pesquisas de mercado Gartner - em comparação com os US$ 60 bilhões de toda a internet. Mas descobrir como tornar a publicidade sem fio mais rentável é muito mais importante do que simplesmente lucrar, já que a curva começa a subir. Uma empresa capaz de assegurar anúncios sem fio e de compartilhar a riqueza com a crescente legião de programadores - os desenvolvedores independentes que criam aplicativos para celulares - poderia extrair o melhor deles. Criar o ecossistema mais poderoso de aplicativos e aparelhos pode deixar os rivais sem fôlego para acompanhar o ritmo. "Vence a plataforma móvel que criar o maior número de maneiras de ganhar dinheiro", diz David Hyman, executivo-chefe da MOG, um serviço de música on-line que cria aplicativos para celulares.
A Apple abriu uma vantagem considerável no estabelecimento desse ecossistema. Programadores criaram mais de 125 mil aplicativos para os aparelhos sem fio da Apple - sete vezes mais do que para o Android - e a diversidade interminável de programas ajudou o iPhone a rapidamente arrebanhar um participação de 14% no segmento de telefones inteligentes, frente aos 3,5% dos telefones que rodam o Android, de acordo a consultoria IDC.
Nos últimos meses, contudo, um número crescente de programadores começou a reclamar de que não consegue ganhar dinheiro com seu trabalho. Os aplicativos gratuitos viraram norma e são bem poucos os que conseguem ser vendidos a mais de US$ 0,99. Alguns programadores puderam lucrar agregando anúncios em seu software, mas os pagamentos costumam ser insignificantes, já que os anúncios são menores e menos eficientes do que suas versões tradicionais de internet. Segundo uma fonte próxima a Jobs, o executivo reconheceu que os "anúncios sem fio são uma droga" e que melhorar essa situação tornará a Apple ainda mais difícil de superar.
Com seus auxiliares, Jobs vem discutindo formas de reformular a publicidade sem fio, segundo duas fontes próximas à companhia. Essas pessoas não revelaram planos, mas disseram que há muitas abordagens possíveis. A Apple poderia usar sua tecnologia de dados e de geolocalização para tornar os anúncios mais relevantes, de forma que um usuário navegando no celular durante a hora do almoço pudesse receber um anúncio com as ofertas do dia de um restaurante próximo.
Para concretizar algo assim, a Apple percebeu que precisava de uma rede de anunciantes e da tecnologia para direcionar os anúncios de acordo com o comportamento dos clientes. No outono de 2009 no hemisfério Norte, a Apple entrou na disputa pela AdMob, líder do setor embrionário de anúncios em aparelhos sem fio. Era um alvo que fazia toda a lógica; mais da metade dos anúncios da AdMob para telefones inteligentes acabava parando nos iPhones ou iPods Touch. Antes que a Apple pudesse concretizar o acordo, porém, o Google interveio, anunciando em 8 de novembro que pagaria incríveis US$ 750 milhões pela empresa.
Superada em sua primeira escolha, a Apple rapidamente voltou-se para a Quattro Wireless, de Waltham, Massachusetts, maior rival da AdMob. De forma reveladora, quando a Apple anunciou o acordo, Jobs deu ao executivo-chefe da Quattro, Andrew Miller, o título de vice-presidente de publicidade em aparelhos sem fio. Vice-presidente é um cargo raro na Apple e Miller é o primeiro "VP" já nomeado pela empresa para a área de publicidade on-line.
Para quase qualquer empresa, levantar-se contra o Google no setor de publicidade em buscas de internet seria tolice. O Google domina as buscas tradicionais, com mais de 65% do mercado, e sua fatia nas buscas em telefones móveis é ainda mais dominante. Mais de um milhão de empresas disputam palavras-chave para aparecer ao longo dos resultados de busca e a maioria dos especialistas presume que haverá uma migração para os aparelhos sem fio à medida que mais pessoas começarem a usá-los com funções de computação.
As buscas em aparelhos móveis ainda não decolaram. O Gartner estima que foram gastos US$ 924 milhões em publicidade sem fio em todo o mundo no ano passado, menos de 2% da publicidade total na internet. O problema é que não há consistência no comportamento dos usuários quando estão em computadores de mesa ou em celulares. Muitas pessoas evitam abrir barras de busca minúsculas em seus telefones e digitar buscas em teclados apertados.
A Apple tem dados valiosos que podem ajudar a direcionar o negócio de anúncios. A empresa sabe com precisão que aplicativos, "podcasts", vídeos e músicas as pessoas baixam da [loja virtual] iTunes; em muitos casos, possui informações detalhadas dos clientes, como números dos cartões de crédito e endereços residenciais. Isso dá a ela a chance de combinar publicidade e comércio eletrônico de novas maneiras, particularmente após a aquisição da Quattro. A empresa iniciante já trabalha com anunciantes como FordNetflix Procter & Gamble para ajudá-los a descobrir quando e onde colocar anúncios em sites como Sports Illustrated e CBS News. Ao atrelar a tecnologia de anúncios da Quattro à sua própria, a Apple terá condições de dizer aos anunciantes com que frequência e sob quais circunstâncias uma pessoa clicou em determinado anúncio.
Ao lançar o Android, em 2007, o Google informou que se concentraria em desenvolver o sistema operacional e deixaria a produção dos aparelhos para os fabricantes de celulares, como Motorola HTC. A estratégia foi similar à da Microsoft com os computadores pessoais. "Um ou dois aparelhos não importam", afirmou Andy Rubin, chefe das operações do Android no Google, depois do evento do Nexus One. "Vinte ou trinta ou cem aparelhos todos rodando o mesmo software - é isso que importa."
No entanto, a chegada do Nexus One sugere que o Google está preocupado com o fato de o Android não estar ganhando participação de mercado com a rapidez suficiente. "O volume, qualidade e variedade dos telefones Android no mercado, hoje, superou nossas expectativas mais otimistas", disse o vice-presidente de gestão de produtos do Google, Mario Queiroz, no anúncio em janeiro. "Mas queremos mais." O mercado sem fio é tão importante que o Google não pode se dar ao luxo de depender de outras empresas; a ofensiva com o Nexus One, espera o Google, estabelecerá uma base no segmento de telefones inteligentes para que a companhia possa controlar seu próprio destino.
O Nexus One não está livre de riscos. Os fabricantes de celulares que usam o Android poderiam hesitar ao ter de concorrer com seu suposto parceiro. "Se o Nexus One for bom, por que você compraria outra coisa?", diz Edward J. Zander, ex-executivo-chefe da Motorola, que ficou surpreso pelo fato de o Google ir tão longe e entrar no campo de batalha dos equipamentos. "Pelo menos, a Microsoft nunca construiu PCs."
Enquanto isso, o Google tem consciência de sua vulnerabilidade na publicidade sem fio e pressiona para obter avanços. Schmidt acredita que os anúncios sem fio algum dia serão mais importantes que os vistos em PCs. Embora o Google tenha se recusado a falar para esta reportagem, Schmidt aventou a ideia de que alguns telefones celulares poderiam acabar sendo gratuitos, com a publicidade pagando as contas. "Se o Google conseguir fazer isso, eles serão intocáveis", diz o consultor de tecnologia John Metcalfe, que trabalhou com o Google em projetos sem fio. "A Apple não teria condições de dar uma resposta a isso."
É claro, Apple e Google poderiam, ambas, acabar prosperando à medida que a computação fica cada vez mais móvel. Mas haverá perdedores. A Microsoft vem encolhendo rapidamente nos telefones inteligentes, com os fabricantes deixando de prestar atenção ao Windows Mobile. A Nokia, maior fabricante mundial de telefones sem fio, também enfrenta dificuldades; sua loja on-line Ovi trabalha de maneira quase anônima em comparação com a iTunes, da Apple. Até a Samsung e a LG Electronics, há muito aplaudidas por sua tecnologia avançada, estão perdendo terreno. "As fabricantes de celulares mais antigas nunca tiveram que lidar com aplicativos ou programadores", diz Shaw Wu, analista da Kaufman Bros. "Simplesmente não está em seu DNA. [Mas] o mundo se move nessa direção."
Alguns analistas acreditam que a batalha entre Apple e Google deverá ficar muito mais dura nos próximos meses. Jonathan Yarmis, da consultoria Ovum, acredita que a Apple pode, em breve, substituir o Google como ferramenta de busca padrão em seus aparelhos. Jobs poderia chegar a um acordo - pasmem! - com a Microsoft, para colocar o Bing como ferramenta de busca, ou até lançar sua própria ferramenta.
Seja o que for que aconteça, está claro que a Apple e o Google encaminham-se para mais conflitos. O Android é uma ameaça para os negócios do iPhone, que em pouco tempo passou a ser responsável por mais de 30% das vendas da Apple. Enquanto isso, quase todo o crescimento nas buscas deverá vir dos aparelhos móveis. A Piper Jaffray prevê que chegarão a 23,5% do total de buscas, em 2016, frente aos menos de 5% atuais. Isso prepara o palco para algum novo grande acontecimento no setor de tecnologia. "Essa rivalidade vai acelerar a inovação", diz Andreas Bechtolsheim, cofundador da Sun Microsystems e um dos primeiros acionistas do Google. "A Apple vai muito rápido, mas ter alguém em seu encalço sempre faz você ir mais rápido. Isso será bom para os consumidores."
Porém, em uma batalha pelo futuro da computação, a amizade quase certamente será uma vítima do progresso. "Simplesmente dá para sentir a tensão aumentando", diz o analista Gene Munster, da Piper Jaffray. "Até o Nexus One, a competição era algo distante. Mas o iPhone é o queridinho da Apple. Agora é pessoal". (Tradução de Sabino Ahumada)

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